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  COMO CONHECER O TEMPERAMENTO DO AKITA ATRAVÉS DE UMA ATENTA E AMOROSA OBSERVAÇÃO. (Retranscrição de e-mails de J.C.Gamma)
 

 

A seguir trechos da correspondência trocada entre eu e JC.Gamma, uma pessoa que adotou um casal de Akitas, de 4 anos, de minha criação, de nomes Hokuto e Ikiru. A publicação destes e-mails foi permitida por J.C.Gamma. E meu objetivo em publicá-los é transmitir de uma forma espontânea e informal as características da raça Akita, tanto em seu modo específico de portar-se, como no modo como eles fazem companhia para seus donos, e como exercem sua função de guarda. Mas, mais do que tudo, eu quis publicar em meu site uma linda história de amor, além de meu maior agradecimento a pessoas tão especiais como JC.Gamma e sua doce companheira.
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Olá Kenia!

Os cachorros se adaptaram muito bem. Na verdade, estou impressionado com a docilidade dos dois, tanto comigo como com a Marly. Aceitam o não sem hesitar, abanam o rabo assim que chegamos perto e obedecem a todos os comandos, mas estou preocupado com esta docilidade. Como eu te disse, precisamos de cães de guarda, pois, o lugar tem uma certa incidência de roubos em residências, (nesta casa que compramos já ocorreu) e, devido a isto, os nossos amigos tem que ser cães de guarda.

Digo isto porque não tivemos a menor dificuldade com os dois, sempre dóceis para tudo, mas, esta docilidade não se limita a nós, no segundo dia aqui tive que deixá-los presos em coleiras e obviamente os dois se soltaram enquanto eu estava fora. Pois bem, os dois se achegaram ao pedreiro e ao servente, abanando o rabo e sem nenhuma agressividade.

Te digo isto porque nós realmente estamos em área de risco e estamos até já procurando um forma de sair daqui, reformei inclusive por este motivo, para valorizar uma possível revenda, e assim, se os cães não forem mesmo de guarda, estamos em perigo pois os roubos em residências são freqüentes (infelizmente não soubemos antes).

Tenho observado os dois, e mesmo conhecendo o caráter dos Akitas estou estranhando, até o pedreiro descobriu que eles são mansos, pois conhece um Akita que nem deixa ele chegar perto.

Então eu te pergunto, como é isto? Eles são mansos mesmo? Na verdade, já tendo criado dobermans, pastores e labradores, para mim, eles parecem labradores.

Espero que você entenda minha preocupação, adoramos os dois, mas precisamos de guarda e não somente de companhia...

J.C.Gamma e Marly

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J.C.Gamma e Marly!
Acredito que eles devem estar meio perdidos, sem saber quem é quem, quem manda, quem são os donos deles, qual é sua casa, etc... e certamente o pedreiro fez parte desse mundo novo de vocês! Mas, independente disso eles são muito amorosos com a gente. Eu gostaria que eles fizessem a guarda que vocês precisam, mas infelizmente isso só será provado em caso de necessidade... o que não seria uma boa coisa porque sempre é muito extressante... Enfim!
Lembrei agora da bronca de Hokuto com um amigo nosso que não vem seguido aqui, mas cada vez que vem ele ficava um tempão rosnando prá nosso amigo. Sei lá por que. E outra coisa é que na frente de nossa casa tem um condomínio, onde frequentemente fazem festas. Nesses dias, quando Hokuto estava na frente, ele estava furioso com a movimentação. Ele é guarda, acredito que bem mais do que Ikiru.
Te conto uma historinha muito interessante... Temos aqui conosco, com 11 anos, nosso único akita que é (ou era) agressivo. Inclusive, ele só cruzou uma vez, porque depois eu não quis mais que ele tivesse filhos com o mesmo temperamento dele. Esse cão sempre foi considerado muito brabo, e 2 filhos da única ninhada que ele teve, também apresentaram o mesmo comportamento. Pois bem, há uns 3 anos atrás, quando ele ainda fazia guarda na parte da frente de nosso terreno, certa noite acordei ouvindo ruídos e fui olhar na janela de nosso quarto... eis que o portão de nossa casa estava totalmente aberto (certamente obedeceu o comando do alarme de algum carro) e esse macho, com sua companheira, passeavam entre os visitantes que se retiravam de uma festa do condomínio. Ficamos apavorados e meu marido foi lá buscá-los! Vocês não imaginam o que ele escutou... que os cães eram maravilhosos, divertidíssimos, muito alegres! Vocês não imaginam o pavor que sentimos pelo que poderia ter acontecido! Mas, não tínhamos nos dado conta do detalhe: a amizade do macho com as pessoas se deu fóra de seu território!
Vamos conversando... Kenia.

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Oi Kenia!
Gratos pelos  comentários, vamos acompanhar a evolução dos dois por aqui.

Por enquanto, creio que ainda estão meio perdidos, embora o comportamento conosco seja o mais franco e obediente.  Nos acompanham quando caminhamos ao redor da casa, (numa das laterais há uma escada ligando os dois níveis do terreno, o Hokuto me acompanha e sobe, a Ikiru recua e dá a volta) e se deitam sempre perto de onde estamos, e de noite dormem debaixo de nossa janela, na varanda da frente.

Ontem recebemos um casal de amigos com o filho de onze anos para um churrasco e os dois cães não demonstraram nenhuma agressividade. Ia prendê-los mas acabei não fazendo. Resultado passaram o churrasco todo em volta, não tentaram avançar na carne (fiquei de olho e disse apenas um não para cada um) e ainda brincaram com o menino!

Tudo de bom e boa semana!

J.C.Gamma
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Oi Kenia, tudo bem?

Hokuto e Ikiru estão muito bem, como se sempre estivéssemos estado juntos! Já estão fazendo guarda e se sentindo os donos do pedaço...

Nenhum estranhamento, (fazemos o que queremos com os dois, a Marly então, agarra, aperta, e eles aceitam e adoram, e basta um não para sossegarem...) nenhuma agressividade e cuidando da gente o tempo todo, Hokuto mais guardião e Ikiru mais na dela.

São carinhosos e sempre por perto de nós...Hokuto com ciúmes e se metendo entre a gente se a Ikiru pede carinho.

Há coisa de dez dias, brigaram quando estávamos fora e Ikiru ganhou um pequeno corte perto do olho, dois mm e já cicatrizou. Desde então não brigaram mais.

As vezes temos a sensação de que eles sempre nos pertenceram (ou vice versa... rs) tal a interação entre nós, já não podemos ficar sem eles e acho que a recíproca é verdadeira...

Dia desses a portinha do portão não foi fechada e de madrugada o vizinho me ligou para avisar... imaginei o pior, os dois fugiram! Que nada! Estavam na varanda como sempre, e sempre que vamos sair os dois se sentam na varanda e ficam olhando a gente fechar o portão. Quando chegamos, a mesma coisa. Basta dizermos para ficarem quietos que eles esperam entrarmos para iniciar a sessão de carinhos e lambidas...rs

A Ikiru é mais atrevida, mas medrosa que só... Quando chove muito forte, com raios, se encolhe nos cantos. Há duas noites a chuva foi muito forte com ventos que não deixaram as varandas secas, acabamos por deixa-los dormir num canto da sala, atrás da porta. Pois ficaram por lá a noite toda, e de manhazinha abri a porta e lá foram os dois correndo fazerem as necessidades... Hokuto senta sempre na soleira da porta de entrada, um pedaço do corpo dentro de casa mas não invade, rs...

Realmente estamos gratos a vocês pelo presente que é ter a companhia de cães tão especiais, fique certa que nossa felicidade é imensa quando os vemos por perto, felizes e alegres. E fazendo guarda sempre...

Bem, por hoje é só, vamos nos falando,

Tudo de bom,

J.C.Gamma e Marly

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J.C.Gamma e Marly!
Vocês não têm idéia o prazer que eu sinto lendo sobre as notícias do Hokuto e Ikiru e da alegria de vocês. É muito gostoso mesmo! Vocês agradecem o presente e eu agradeço por vocês estarem cuidando desses dois desta forma!
Fiquei curiosa para saber... eles estão fazendo guarda? Como foi que começou a acontecer?
Um grande abraço, Kenia.

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Quanto à guarda, existem dois momentos distintos: um de dia, outro de noite.

De dia eles ficam atentos, sempre nas imediações da frente da casa. Por vezes deixamos a porta da frente aberta e eles ficam deitados por ali, ou com meio corpo dentro de casa, ou na varanda que fronteia a casa. Dali até o muro da frente são uns 10 mts e qualquer movimentação na rua é acompanhada por eles. Quando alguém pára na frente da casa, que tem muro de 2,20 cm de altura, o Hokuto ou rosna ou se dirige para a metade do caminho e dá uns latidos altos com rosnado. Se é só uma pessoa passando eles não dão bola.
Já aconteceu de ser algum serviço, tipo pedreiro, marceneiro, e por duas vezes, mesmo eu deixando entrar e recebendo, ele não deixa de ficar atento em posição de clara vigilância, rabo parado, orelhas apontadas e olhos atentos, não late ou emite um rosnado baixo e se cala, mas fica atento (Ikiru idem, mas atrás dele ou seguindo o comportamento dele). Quando isto acontece, eu nem duvido: boto o cara na lista dos suspeitos e trato com reserva. E não é que o Hokuto sempre está certo? Nas duas vezes os caras acabaram por fazer besteira, os dois tentaram me enganar nos preços!

De noite o comportamento muda um pouco, eles normalmente dormem na varanda, bem debaixo da nossa janela, pois nosso quarto fica na frente, do lado esquerdo de quem olha a casa. A Ikiru tem um cantinho bem no meio da varanda, entre as janelas da sala e nosso quarto, e o Hokuto ou fica sobre nossa janela ou em frente da porta de entrada. A Marly chega em casa lá pelas 8 e meia, voltando do trabalho, e eles sempre sabem que é ela e não latem nem fazem ruído, só se achegam abanandos os rabos, suspirando e lambendo...

Em caso de movimento na rua, eles quase não fazem barulho, mas andam até o local e ficam atentos, por vezes rosnam baixo. Quando alguém pára em frente a casa, aí latem forte, e normalmente eu percebo que é algo diferente e acendo alguma luz ou me chego na janela, eles aí dão uma parada olham prá mim e ficam por perto em sinal de alerta.

Nos fundos, existe uma mata por toda a extensão da minha rua, assim, todas as casas dão para esta mata. Não há tráfego de gente, mas por vezes ouve-se vozes de pessoas caminhando pelas trilhas que vão dar na praia, distante uns 800 mts.

As vezes de noite, eu ouço eles se dirigindo rapidamente para o muro dos fundos que dista uns 18 metros da varanda da frente. Ou vão pela rampa na lateral esquerda ou vão pela escada na lateral direita (que a Ikiru já sobe e desce sem problemas) a casa tem dois níveis, os fundos onde ficam a cozinha, uma suíte e dependências, fica em nível inferior ao dos quartos e sala que ficam no nível da rua. Quando eu chego na varanda de trás, olho de cima e lá estão eles, ou com as patas no muro, ou cheirando e rosnando baixo. Pode ser um gato, ou uma ave noturna, mas o importante é que eles não deixam de ouvir e vigiar...

De noite percebemos que eles ficam ainda mais silenciosos e mais atentos e vigilantes. E é bem evidente a guarda. Não é o comportamento de cães de companhia, Hokuto fica de guarda mesmo e Ikiru também.

Agora, uma coisa que me espanta é o carinho que eles têm conosco. Kenia, eu já criei vários cães, e nunca vi um cão adulto aceitar novos donos com tamanha afeição e irrestrita obediência! Eles nunca se afastam de nós (e dizem que os Akitas não são de muita festa), e já sabem quando vamos descer para a parte de trás: basta eu dizer baixinho, “vamos” que eles dão volta e ficam na porta dos fundos, esperando eu abrir...rs, já fiz todo o tipo de experiência para testar a dominância do Hokuto, ele aceita tudo sempre com afeto e alegria, abanando o rabo e lambendo.

Desculpe te dizer, acho que você nunca percebeu, mas só cuidou deles para nós, eles sempre foram nossos. A gente só estava longe, mas nos reencontramos graças a você!

Um grande abraço,

J.C.Gamma, Marly, Hokuto e Ikiru

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Oi Mamãe, lembra de mim? Eu vou sempre me lembrar de você e todos daí.

Mas agora quero apenas te falar da nossa nova casa.

O começo foi estranho mamãe; a gente viajou naquelas casinhas apertadas que a gente já conhecia, mas foi diferente porque quando chegamos não tinha ninguém, nenhum cheiro, nada que a gente conhecesse, a Cris não nos recebeu e tudo era novo e diferente; a Ikiru ainda sentia um pouquinho de dor na barriga e eu estava preocupado com ela.

Chegamos de noite e um homem de cabelos brancos nos colocou em outro carro, eu na casinha apertada e a Ikiru deitada do meu lado e andamos mais um pouco de carro... Foi estranho mas eu fiquei tranqüilo; o homem dos cabelos brancos falava carinhosamente comigo e fazia carinho na Ikiru e eu vi que ela estava gostando e gostei também.

Daí, quando o carro parou ele nos tirou do carro com muito cuidado. A Ikiru primeiro e depois eu, e quando ele abriu a portinha eu sai e senti muitos cheiros novos e diferentes. A voz do homem era tranqüila e eu vi que ele tinha gostado de nós dois,e eu gostei dele também, mas era um estranho e eu fiquei desconfiado embora estivesse muito cansado.

Ele me soltou num terreno grande em volta da casa e me deixou bem a vontade. Eu estava apertado mas era tanto cheiro novo que eu nem me lembrei de marcar meu território (acho que ainda não sabia que era tudo meu)! Tinha uma moça lá também, e ela nos chamava com muito carinho e alegria e a Ikiru foi logo lambendo ela e eu vi que elas gostavam uma da outra e isso foi bom de sentir. Eu fiquei curioso e cheguei perto dos dois, da moça e do homem, e eles me deixaram a vontade pra cheirar e andar, e também me fizeram carinho, que eu gostei mas não demonstrei não! Afinal eu tinha que proteger a Ikiru e ele podiam pensar que eu era fraco! Até dei uma rosnada, mas eles nem deram bola e continuaram a me carinhar! O homem me mostrou onde estava a água e eu bebi muito e chamei a Ikiru que bebeu mais que eu!

Era de noite e as estrelas brilhavam no céu, eu cheirava o ar com muita vontade de sentir seu cheiro mamãe, ou o do Volmir, mas não senti... Mas, o cheiro do homem e da mulher estavam por toda a parte e assim eu percebi que eles moravam ali, era o território deles e eu fiquei atento e um pouco preocupado : e se eles brigassem com a gente por invadir o território deles?  Chamei a Ikiru e andamos por todo o território e sempre havia o cheiro dos dois, o homem e a mulher e eles nos deixaram bem a vontade e só ficaram por perto. Um também tinha o cheiro do outro, como eu e a Ikiru, e ficamos sabendo que eles também eram um do outro, como nós, e isto foi bom de saber também.

Percebi que o homem era muito carinhoso mas atento e sabia o que eu estava fazendo, não tinha medo de mim e até sentou do meu lado me olhando nos olhos e eu senti que era um homem em quem eu podia confiar, que me admirava mas não me temia e sabia o que eu sentia e me respeitava; naquele momento isto foi muito bom de sentir também.

Daí o homem trouxe comida, e era um cheiro que eu e a Ikiru conhecíamos, foi bom de sentir, mas eu não comi, nem a Ikiru, pois tinha muitos cheiros novos e ficamos meio perdidos. Pensamos que a gente ia ficar em algum lugar longe da casa deles, mas eles colocaram nossa cama bem perto da cama deles e quando eles foram para dentro da casa a gente continuou a sentir o cheiro deles bem perto, dormindo do lado da gente e eu fiquei mais tranqüilo e como a Ikiru estava muito cansada, a gente se deitou bem juntinho e acabamos dormindo também.

No outro dia eu acordei com o homem abrindo a porta e mostrando os dentes para mim, coisa que ele faz sempre quando fala comigo e com a Ikiru. Fez carinho (que eu gostei muito) e nos trouxe de novo a comida que eu comi toda pois estava com muita fome! A moça também veio nos ver e carinhar e a Ikiru, boba que só, nem deu uma rosnadinha, foi logo lambendo a moça e ganhou um monte de carinho, tanto carinho que eu até fiquei com vontade e fui chegando perto... E não é que era bom mesmo?  A moça me abraçou e me carinhou e eu vi que o homem também gostou de ver e não se importou nem um pouquinho com a minha presença junto dela. Daí eu não resisti e fui pra perto dele e não é que ele me fez muita festa e carinho?

Este dia foi muito bom e especial pra mim e prá Ikiru. Primeiro porque a gente pode sentir que eles estavam nos dando todo território deles e segundo porque eles ficaram sempre por perto e sempre nos dando carinho e era só pra gente mamãe! Eu e a Ikiru éramos os únicos cães do território! Neste dia descobrimos também que tinha outros cães por perto, mas os muros não deixavam a gente vê-los, só sentimos os cheiros. De um lado tem uma cachorrinha poodle e do outro lado da rua tem um monte de cachorros, mas a gente sentiu que eles não tem a liberdade e o carinho que nós temos, ficam presos o dia todo e choram muito por estarem sozinhos.

Mas eu e a Ikiru quase nunca ficamos sós. Quer dizer a gente até fica, mas o J.C. (este é o nome do homem) e a Marly sempre voltam e a gente já sabe quando eles vão sair e claro, quando estão chegando.

Descobrimos também que eles precisam muito da gente e ficam muito felizes quando a gente toma conta da casa e do território que agora é nosso e eu acho mamãe, que este território estava mesmo esperando a gente pra ser dono dele! Tem uns gatos abusados que logo que a gente chegou ainda tentaram ficar passeando mas a Ikiru, que odeia eles, botou eles pra correr. Eu nem me dei ao trabalho, ela faz isto muito bem. Eu, por outro lado, já mostrei que isto aqui é nosso. Soltei (e de vez em quando ainda solto) uns latidos bem fortes e claros dizendo que aqui mando eu (e o J.C. claro). O J.C. me deixa bem a vontade pra tomar conta de tudo quando ele ou a Marly saem, e também entende quando eu aviso latindo que tem algo estranho, fico bem satisfeito por ver que o trabalho que ele me deu é respeitado e reconhecido. Eu confesso prá senhora mamãe, que no começo eu ainda dei umas rosnadinhas pro J.C., pra testar ele, ver se ele tinha medo ou não me entendia, mas ele tirou de letra mamãe! Nunca brigou comigo e nunca recuou de perto de mim, pelo contrario, sempre que eu dava uma rosnada ele se chegava bem seguro e me carinhava...Daí eu fiquei mesmo gostando muito, muito dele!

Nosso canto é bem debaixo da janela do quarto deles, na frente da casa e a gente sempre sente o cheiro deles bem perto e isto também é bom. De dia a porta da casa fica aberta e a gente pode entrar só um pouquinho, mas pode. A Ikiru que a senhora sabe, é muito sonsa, de vez em quando tenta se enfiar lá pra dentro, mas quando ouve o “não!” do J.C. ou da Marly, enfia o rabo entre as pernas e sai... Eu nem faço isto, pois eu sei que eles não gostam e respeito, porque eles também respeitam a gente e tratam da gente com muito, mas muito mesmo, carinho e atenção. O J.C. sempre escova a gente e cuidou da Ikiru até ela sarar do corte na barriga. Eu ficava preocupado andando em volta, mas eles cuidavam com tanto carinho dela, que eu deixei pra lá.

Quando eles estão em casa a gente sempre ganha carinho e atenção mas também temos nosso espaço e podemos fazer o que a gente gosta, deitar nos nossos cantos prediletos e vigiar o território.

De vez em quando o J.C. pega um toco de madeira que eu adoro e brinca comigo, joga prá eu pegar e eu finjo que não vou devolver mas não resisto, basta ele me chamar e eu entrego o toco, Claro que eu sei que vou ganhar carinho, mas também sei que se ele chama eu devo ir, afinal ele conta comigo e confia em mim, como eu confio nele.

Ontem foi especial também mamãe, porque fomos conhecer o que tem em volta do nosso território. A gente sentiu que tinha algo diferente porque eles colocaram as nossas coleiras e depois saíram a pé com a gente. Entramos por uma trilha numa mata fechada que fica bem perto do nosso território e eu fiquei muito excitado me sentindo como meus antepassados nas florestas do Japão! Era tanto mato, folhas, sons, cheiros novos que eu nem sabia qual seguir! Andamos uns vinte minutos nesta mata, passamos um riozinho de águas limpas que eu adorei e depois de passarmos por uma mata de pinheiros eu comecei a ouvir bem perto, um barulho que sempre ouvimos lá de casa, de noite mais forte, de dia meio misturado com outros sons: parece um ronco e um chiado, às vezes mais forte às vezes mais fraco, mas nunca pára e eu não sabia o que era mas agora eu sei mamãe! É uma quantidade enorme de água, que não pára de se mexer e faz o ronco quando bate na areia e o chiado quando escorre nela! A areia fica na beira e parece não ter fim.

Quando chegamos neste lugar lindo e deserto eles soltaram a gente e nós corremos muito, pulamos e brincamos demais! A gente corria e ficava olhando eles de longe, daí dava uma saudade de ganhar carinho ou eles nos chamavam e a gente corria e ganhava carinho...como foi bom! Só teve uma hora que não foi bom prá mim: a tal água passou por baixo de mim muito rápido, eu me assustei e tropecei nas minhas pernas e cai de lado, mas depois eu vi que era rasinho e nem me importei. A Ikiru ficou doida correndo atrás dos pássaros que pousavam por perto, mas eu nem dei bola prá eles, eu sei que eles voam e não ia adiantar mesmo correr atrás...Quando voltamos, passamos por outra rua, com várias casas onde outros cães ficavam latindo nos avisando que ali era território deles mas, nem eu nem a Ikiru demos bola ou latimos, a gente tem o nosso território e adoramos ele!

Pois é mamãe, eu também quero te falar uma coisa muito importante. Para mim, para a Ikiru e para você também.
Eu sou um Akita, um legítimo cão japonês, nascido e criado dentro do Bushido, o código de honra dos samurais. Eu sou um samurai mamãe, e a Ikiru a minha leal e fiel companheira. Eu preciso e tenho que servir a um senhor. Preciso guardá-lo, proteger seu território, tomar conta daquilo que ele a mim confia, minha honra e minha vida tem assim, o sentido que precisa ter para que eu me sinta feliz e completo.

E é por isto que eu te agradeço mamãe. Primeiro por ter me criado, me dado um nome do qual me orgulho, o nome do meu clã, o nome Yamada que me faz especial e único. Segundo por ter me entregue ao meu senhor e leal amigo, J.C., e sua meiga companheira Marly. Eles precisam e honram o meu serviço e a minha utilidade. Sou agora o guardião do território que eles a mim confiaram e devo te agradecer mamãe, por me dar mais esta prova de amor e carinho e por isto, nunca vou me esquecer de você e de todos do clã Yamada.

Nós Akitas temos um dom especial, que a poucos humanos é dado o prazer de conhecer e entender, você é um deles mamãe, e o J.C. e a Marly também... Quando olho nos olhos deles a gente conversa sem palavras, só sentimentos, só entendimento, um momento mágico de paz e compreensão que nós Akitas, partilhamos com poucos humanos de forma tão intensa e ao mesmo tempo serena que, torna-se impossível descrever, apenas partilhar, homens e cães entendendo quão especial e gratificante é, estarmos perto um do outro...

Quem ler estas minhas palavras pode até pensar que não passa de invenção do meu Senhor, o J.C., mas não é mamãe, sou eu, Hokuto, do clã Yamada, quem te escreve, somos nós, Ikiru e Hokuto, usando nosso dom mais secreto e mais especial, te dizendo: Fique em paz mamãe, estamos onde devemos estar e somos muito, muito gratos a você por estes anos ao seu lado.

Vamos sempre ser Yamadas, e nunca vamos nos esquecer de vocês...

   

Hokuto e Ikiru

 


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