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TIPOS DE ACASALAMENTOS*

 

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Kenia M. Ballvé Behr
Canil Yamada / Porto Alegre

Meu início como akiteira não deve ter sido muito diferente do início de muitos dos que estão aqui. Não estudei a raça antes de adquirir meu 1* exemplar. Foi um gesto impulsivo, de paixão à primeira vista, atravessado por histórias de meu passado que, no entanto, nada tinham que ver com uma raça determinada. Da mesma forma, quero dizer que o primeiro acasalamento que fiz se sustentou um gesto regido por motivos altamente afetivos e sem nenhuma noção técnica sobre o que estava fazendo. Foi assim que tudo começou.
No segundo acasalamento procurei o único macho importado do Japão que existia em POA. Então, o critério adotado já tinha uma conotação de melhoria da raça. Pequena... porque não me preocupei em saber do pedigree do macho, não estudei a ascendência de minha fêmea e nem avaliei se valia a pena o investimento frente aos problemas que ela carregava. Bastava com que ele fosse japonês... e que seu fenótipo me agradasse. O resultado não foi muito bom. A maior parte da ninhada apresentou uma tipicidade bastante antiga, como a mãe, e um dos machos saiu muito típico, embora tivesse uma má traseira e fosse por demais agressivo, como o pai. Estas primeiras experiências foram o início da construção do meu ponto de vista atual.

Tenho 8 anos de experência com a raça akita. Importei 12 cães: 3 da Argentina (de origem italiana), 2 da Itália, 1 da França e 6 do Japão. Acompanhei o desenvolvimento de 20 ninhadas e mais de 100 filhotes. Não me dedico exclusivamente à cinofilia e minha formação profissional de base está longe da veterinária ou da biologia. Quero deixar claro, então, que estou aprendendo, que não me considero uma expert no tema desta mesa e que minha contribuição deve ser entendida como o produto de minha experiência até este momento. São pontos de vista que estou constantemente revisando e que é com este mesmo sentido que os trago aqui.

De qualquer maneira parto de alguns pontos de vista, que pretendo expor agora.
Em 1* lugar, considero fundamental ter um projeto de criação, um objetivo a ser buscado com persistência.
Em 2* lugar, enfatizo a importância do estudo do pedigree da fêmea e do macho, aliado à observação do fenótipo, mais a busca de toda e qualquer informação sobre os ascendentes de cada um dos 2 exemplares.
Em 3* lugar, é importante ser definido em grandes linhas o método a ser utilizado na criação, embora o uso de cada um deva ser priorizado em cada momento do processo.

Há uma discussão sempre presente em relação à escolha do método de criação: inbreeding e linebreeding x out cross. Na verdade, não imagino que qualquer destes 3 métodos possa ser deixado de lado num projeto de criação. Todos servem a propósitos diferentes em momentos diferentes. Me situo entre aqueles que pensam que, particularmante na raça akita, deve ser utilizado preferencialmente o linebreeding, usando-se por vezes o inbreeding e, quando necessário, o out cross, este entre cães com pedigrees muito fechados. Penso também na importância da inclusão de um novo padreador ou matriz de tempos em tempos para atualizar o sangue do canil. No caso da raça akita, se possível, uma nova importação ou um filho de cães importados nos últimos anos. Justifico: essa medida não só renova o sangue do canil, como possibilita que a criação se aproxime de um tipo mais atual. Minha referência a que essa atitude é adequada especificamente aos akitas deve-se ao fato que a raça sofreu muitos reveses (mistura com outras raças, resgate do tipo primitivo, divisão entre AKITAS e GCJ, etc...) e disso não fazem tantos anos, com o que ainda existe a necessidade da fixação de um tipo.
O exemplo mais claro disso vivi em minha própria criação: meus 5 primeiros exemplares importados da Itália, todos filhos ou netos de japoneses, sem uma maior mistura de sangue de akitas americanos (ainda não separados naquela época) do que aquela que ocorrera no Japão, num determinado momento mostravam certas diferenças de tipicidade em relação a exemplares vindos do Japão. Qual a explicação desse fenômeno senão as mudanças propostas pelos japoneses, já presentes nos exemplares do Japão, antes de estarem na Itália? O que comprova essa hipótese é que neste momento muitos Canis italianos já apresentam exemplares muito atuais em função de importações feitas recentemente.
Esta é a situação da nossa raça. Muitos se queixam que estas mudanças mais ou menos constantes prejudicam os planos de criação. Concordo que tornam nosso trabalho mais complexo, mas penso que nosso plano de criação tem que contemplar o momento e a história da raça que criamos. Então é isso aí!

Mas, então, retomando os tipos de acasalamento...
O objetivo do inbreeding e do linebreeding é fixar caraterísticas.
Dizem também alguns críticos desses métodos que através de inbreeding / linebreeding é mais fácil conseguir campeões ao custo de sérios problemas de saúde para as proles desses cães... Questiono esta posição. A receita para formar campeões certamente está mais ligada a boas matrizes, possuidoras de qualidades e com boas linhas de sangue, assim como a bons padreadores, tanto em pedigrees como em tipo, e fundamentalmente, um cuidado especial com nossos filhotes, tanto em termos de alimentação, saúde, atividades físicas e socialização.
Então, mais do que conseguir campeões, o objetivo primeiro desses métodos é fixar um tipo, sendo esta uma tarefa que demanda tempo e que dá trabalho até excluir as características indesejáveis que se fixam também. Além do que, se o método é mal empregado, surgem conseqüências, como por exemplo, a produção de filhotes muito semelhantes que pode acabar ficando tão próxima ao mediano que aí mesmo é que não saem campeões...
No que diz respeito à crítica que inbreeding e linebreeding tendem a fixar e a tornar dominantes as doenças geneticamente transmissíveis - que a consangüinidade aumentaria esse risco -, na verdade, pelo que entendo não são estes métodos que criam os problemas de saúde, o que só ocorre se o método for mal empregado, no sentido de continuar utilizando animais que trazem estes problemas de saúde... Daonde só devem ser utilizados animais isentos desses problemas.
Outra questão que muitos levantam, onde me incluo, é como saber da saúde de exemplares importados, na medida em que não temos acesso absoluto a algumas das linhagens com que trabalhamos. Na verdade, a única saída é a experiência. Sabe-se que duas gerações de inbreeding mostra se uma linha está livre de problemas. E temos que ter consciência que quando nos embrenhamos num trabalho de criação, enfrentamos riscos na utilização de qualquer método. Então, creio que deve-se tomar todas as precauções para que eles sejam os menores possíveis, mas um certo risco sempre estará presente em todo projeto que busque qualquer tipo de melhoria. E uma certa ousadia é fundamental num trabalho de criação.

O out cross não extingue a possibilidade de doenças hereditárias, apenas impede que as mesmas apareçam. Desta forma, não resolve os problemas de saúde. Então, segundo meu ponto de vista, sua maior importância não é evitar que apareçam problemas de saúde. Enquanto a consangüinidade fixa qualidades existentes e nos permite fixar e manter um determinado tipo, a introdução de uma nova linha de sangue num momento adequado, embora possa introduzir defeitos e levar ao risco de perder o tipo (naquela ninhada, é claro), também pode introduzir novas qualidades, além de livrar a criação de fixar um tipo mediano, distante dos objetivos de aprimoramento da raça. Como muitos, creio que após o out cross é fundamental a volta a um acasalamento fechado, com o objetivo de fixar o produto novo adquirido com o acasalamento aberto.

Tenho tentado trabalhar com exemplares importados da Europa e do Japão, como se eles fossem de 2 linhas diferentes. (Digo “como se fossem de linhas diferentes” porque na verdade não são totalmente diferentes - existem algumas coincidências da 4* geração em diante. Não é à toa que o Canil de procedência de ambos é o mesmo, no Japão – minha escolha nestas importações foi justamente de trazer cães que tivessem linhas de sangue semelhantes as de meus primeiros exemplares). Na verdade, nestes cruzamentos estou utilizando uma espécie menos fechada de line breeding. Busco, assim, um tipo atual em relação ao que está sendo proposto nos últimos anos pelo Japão, principalmente orelhas, olhos, cara e expressão, tentando não perder as qualidades importantes de meus exemplares mais antigos, em relação a alguns aspectos da sua estrutura.

Para finalizar, diria que em termos de Brasil, como ainda temos uma quantidade grande de tipos, seria muito bom se os criadores usassem mais linebreeding, o que permitiria mais rapidamente a fixação de um tipo.

* Participação no SEMINÁRIO BRASILEIRO DA RAÇA AKITA, realizado em Maio de 2003, em São Paulo.
Mesa Redonda Tipos de acasalamentos.


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