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1. Por que você escolheu a raça Akita?
Foi algo inesperado. Eu não era e nem tinha a intenção de ser “cachorreira”, não conhecia a raça Akita. Estava procurando uma jóia como presente de aniversário, quando vi um Akita pela primeira vez. Lá estava ela, uma “jóia”, na sacada do apartamento da Ana, a moça que vendia jóias, atento a tudo, silencioso, com aquele ar de dignidade. Fiquei fascinada. Naquele dia mesmo decidi que queria ter um cão daqueles. Essa decisão se concretizou 1 mês depois, quando adquiri Yushi, minha primeira Akitinha. E foi na convivência com ela que decidi investir nessa raça maravilhosa, fundamentalmente pelo temperamento, pela beleza e pela lealdade tão característicos destes cães.
- 2. O que fez você pensar em pistas de exposições, e quando iniciou a freqüentá-las?
No dia que Yushi teve sua primeira ninhada, Olga, a Sra. que veio fazer a vistoria (naquela época isso era uma prática corrente), olhou um filhotão branco que estava no pátio (nosso 2* Akita), disse que ele era bonito e perguntou por que não o levávamos a exposições. Então, fomos nos informar que coisa era essa... Lá se foram 5 anos. Como vocês podem ver, o início de tudo foi muito casual.
- 3. Quais as dificuldades que você encontra na criação da raça Akita? Nada que faça com que eu pense em desistir de criar esta raça.
De qualquer modo, a principal dificuldade na criação da raça Akita, segundo meu ponto de vista, tem relação com o tema da saúde. Embora não sendo uma raça que apresente muitas enfermidades, algumas doenças sérias que acometem esses cães ainda não são suficientemente conhecidas em nosso meio (quem sabe, em toda parte...) e, portanto, em determinados momentos só nos resta apostar na sorte, sem qualquer tipo de certeza tanto em relação ao diagnóstico, como no que diz respeito à terapêutica. De alguma forma ainda estamos todos aprendendo e ainda necessitados de mais informações do Japão.
Outra dificuldade se refere ao fato de que como a raça sofreu uma série de modificações em sua tipicidade e no resgate de sua pureza, se fez necessário a importação de cães, seja do Japão, seja de outros países que estão mais adiantados na criação dessa raça. E este fato, embora traga muitos benefícios, traz também muitos interrogantes a respeito dos ascendentes dos cães que importamos e, em conseqüência, daquilo que os mesmos podem passar para seus descendentes.
Um outro tipo de dificuldade, que eu sempre enfatizo, é a impossibilidade desses cães conviverem entre si (macho com macho, fêmea com fêmea) e, na maioria das vezes, também com outras raças.
As demais dificuldades seriam mais genéricas, presentes na criação de qualquer raça. Todos aqueles que estamos envolvidos nisso sabemos que criar bem não é nada fácil e que as exigências que adotamos na criação de cães são infinitamente maiores do que aquelas que têm relação com a criação dos humanos!
4. O que você citaria como vantagem na raça Akita em relação a outras raças?
Penso que o que vemos como vantagem de uma raça tem muita relação com nossos gostos e com nossa maneira de ser. Não é à toa nossa preferência por esta ou aquela raça. Então, para mim, as maiores qualidades desta raça são: a) Os Akitas são cães silenciosos, que só se manifestam frente a situações em que seu território corre o risco de ser invadido. b) São verdadeiros cães de guarda e, embora cumpram bem essa função, não são naturalmente agressivos. c) As manifestações e as demandas de afeto desses cães também são silenciosas: depois da alegria dos reencontros, se instaura a calma de uma companhia tranqüila, sem exigência de atenção permanente como ocorre com cães de outras raças. d) É uma raça extremamente higiênica desde muito cedo, não apresentando também maus odores. e) Além da beleza do temperamento, a beleza estética desses cães, para mim, é fascinante – o porte, o ar de dignidade, o olhar profundo, a pelagem densa, o rabo exuberante, o poder da cabeça e a cara linda.
5. Como devemos fazer para manter o novo padrão da raça sem perdermos as características originais do Akita, como altura, peso, temperamento?
Não sei se entendi bem a pergunta. Em todo caso, vamos lá... O novo Padrão da Raça não propõe nenhum tipo de modificações em relação à altura, ao peso ou ao temperamento. Se nossos cães estão apresentando algum tipo de problema em relação a qualquer destes aspectos temos que reavaliar os acasalamentos e tratar de reencontrar o caminho.
Um dia destes tive notícias, através de um amigo akiteiro, que existe muito problema de temperamento entre os Akitas de sua região. O que se sabe é que esse tipo de problema é herdado, a não ser que o Akita tenha sido maltratado por seu dono ou tenha vivido uma situação de stress grande (seja viagem prolongada, seja mudança de casa, etc...), principalmente entre os 4 e 6 meses, que é a idade em que o medo se instaura nos Akitas. A solução, no primeiro caso, é evitar acasalamentos com cães que tenham esse tipo de problema; no terceiro caso, a solução seria evitar stress maiores entre os 4 e 6 meses. No que diz respeito a maus tratos...
Quanto ao tamanho, e muitas vezes, em conseqüência, o peso, dos Akitas, a altura mínima e máxima dos machos e das fêmeas, está proposta claramente no Padrão da Raça oficial (F.C.I.). Mesmo que recebamos recados ou tenhamos notícias que os japoneses pensam isso ou aquilo (e essa será uma verdade ou será a verdade de alguns criadores japoneses?), se o Padrão não foi alterado, temos que dar um jeito de aumentar o tamanho de nossos cães (afirmo isso porque me parece que o problema dos Akitas brasileiro é serem mais baixo do que altos). E isso se faz através de acasalamentos adequados, sempre lembrando que o que tende a contar mais (embora não seja uma regra) é a altura dos avós, e não tanto dos pais dos filhotes.
Penso que a tendência de cada um de nós é adotar como ideal as características do (s) Akita (s) que temos em casa e a quem nos apegamos. Cuidado! Isso vale desde que nossa preferência esteja em conformidade com o Padrão da Raça e com a função da raça que criamos. Seria uma ironia um Akita, que é um cão de guarda (e em minha experiência é de fato um excelente guarda), ser tímido e frágil, não é mesmo?
6. Para exposições o melhor cão é o que dá show ou o que tem todas as características dentro do padrão?
Vamos partir do princípio que hoje dificilmente vemos nas pistas (do RS, Paraná e SP, que freqüento) Akitas que estejam fora do padrão da raça. Às vezes encontramos Akitinhas um pouco finos, com pouco osso, cara comprida, pouco pêlo, olhos arredondados, sem juba, etc... Quero dizer “feinhos”, mas não necessariamente fora do padrão. Até porque o padrão escrito da raça é bastante pouco específico em relação às modificações propostas pelo Japão nos últimos anos.
Fazendo esta ressalva, então, a questão não seria show x padrão da raça, mas sim, padrão da raça + show. Entendo que, em exposições, se o exemplar (seja a raça que for) além de estar dentro do padrão, “gostar de pista” e, junto com seu handler, “der show”, é a situação ideal para os pisteiros.
Na disputa do “Melhor da Raça”, a importância maior fica com a tipicidade, enquanto o show, embora sempre conte um pouco, não é fundamental. Mais importante que o “show”, segundo meu ponto de vista, é a importância que se pense a tipicidade de um Akita (isto serve para qualquer raça, é evidente) olhando o cão como um todo. Não adianta termos uma cabeça magnífica e o cão ter problemas de temperamento, entrando em pista de rabo baixo; não adianta a movimentação de um cão ser fantástica e ele apresentar uma cabeça fina demais, assim como não adianta a beleza do conjunto de um cão parado, se a movimentação fica muito prejudicada por angulações deficientes. Partindo do princípio que perfeição não existe, é fundamental o conjunto do cão: tipicidade, beleza, temperamento e movimentação, tudo junto numa apresentação bem feita.
À partir da Raça, penso que o julgamento do Grupo e do Final de Exposição se sustenta em 3 pontos: às vezes, a escolha se dá pela diferença evidente das qualidades dos exemplares em pista; em outras oportunidades, as preferências pessoais do juiz por uma ou outra raça podem pesar no julgamento; em outras ocasiões, o que decide é o show e, com isso, me refiro ao fato de um Akita, por exemplo, se mostrar exibindo todas as suas qualidades e a exuberância da raça. O Akita não é um Beagle serelepe, nem um bonachão Basset Hound. É um Akita e como Akita deve se apresentar, num movimento harmônico com aquele que o apresenta. (Não me referi aqui a escolhas políticas porque, na verdade, estas são escolhas onde o que mais importa não é o cão, o que não me interessa...).
Então, para vencer em exposições é muito importante que, junto com a tipicidade, haja também show, e isso depende do treinamento, mas, fundamentalmente, é uma qualidade que é do cão. Existem cães lindos, alegres em casa, que detestam pista, que bocejam ou rosnam enquanto estão sendo julgados, e eu diria que não adianta nada que os faça ter um desempenho brilhante em exposições. Até fecham seus campeonatos, o que como sabemos não é tão difícil, e depois o melhor é deixá-los em casa porque é aí que eles são felizes. Enquanto o outro, o “pisteiro”, parece que o “cheiro” da exposição já o deixa mais aceso. Sua capacidade de exibição parece se acentuar na medida em que a exposição progride. Cresce na pista. Mantém-se excitado mesmo depois que o espetáculo acabou. Até que o cansaço o derruba. Esse gosta das pistas e faz show.
Alonguei-me um pouco a mais nesta resposta, mas não posso encerrá-la sem antes enfatizar a importância do handler no desempenho do cão nas pistas. Quando falo em handler, não importa se é o proprietário ou um handler profissional. O que importa é que seja alguém que conheça a raça, que tenha intimidade com o cão, que dedique algumas horas a ele fora das exposições, que goste dele e que aposte em sua vitória. Que entre em pista para vencer! E o que importa mais uma vez é a paixão. Paixão pela pista, pela competição, pela exibição, pelo show!
7. Qual a definição do Akita ideal (estrutura da cabeça, pelagem, movimentação, aprumos, temperamento)?
Imagino que esta pergunta pudesse ser: “Não havendo nada fora do que está proposto pelo Padrão da Raça, qual a definição de Akita ideal” (estrutura da cabeça, pelagem, movimentação, aprumo, temperamento)?”Vou responder de acordo com a forma como interpretei a pergunta, certo?”.
Em primeiro lugar, é difícil a gente se livrar do tipo de Akita que a gente tem em casa, ainda mais se ele é um vencedor nas pistas, além de ser um bom padreador. Mas impossível não é... Vamos lá!
Para mim, o Akita ideal tem que ter uma bela cabeça, uma cara linda, olhar profundo, orelhas bem postas e uma boa juba. O pescoço que sustenta essa cabeça deve ser poderoso para garantir a imponência do Akita. Mas o que vem depois da cabeça também é fundamental. Dorso reto, corpo poderoso, boa musculatura, frente larga e traseira forte. Altura média. Anteriores muitos retos, com mãos bem redondas, posteriores fortes e retos, boas angulações típicas da raça. Cauda farta que se harmoniza com a cabeça. Não importa se muito ou pouco enrolada, mas tem que ser farta. Pelo denso, com brilho, de preferência vermelho, e vermelho intenso. Meio “espetadinho”, como convém. As partes brancas, muito brancas. Impetuoso e solto na movimentação, faceiro no andar, altivo no olhar. Nobre, leal e corajoso.
E se for uma fêmea? Dá quase no mesmo, só acrescentando à imponência e à nobreza uma pitada de graça, definindo no feminino a cara e o olhar de uma fêmea.
E se eu já tivesse “aquele” vermelho, como seria o tigrado? Com branco na marcação da cara, branco, muito branco nas botinhas, no peito e na ponta do rabo. Teria que ter muito osso e muito brilho numa pelagem densa e farta. Não importaria o fundo vermelho ou cinza. Mas o poder da cabeça e a imponência da postura teriam que permitir superar aquilo da expressão que fica oculto no escuro da pelagem.
8. Quais os melhores acasalamentos e linhas de sangue?
Sem a menor dúvida que o melhor acasalamento é aquele em que conhecemos suficientemente a linha de sangue do macho e da fêmea, e procuramos obter exatamente as qualidades que supomos que eles possam passar para os filhotes. No entanto, quando estamos lidando com exemplares que importamos, justamente para enriquecer a linha de sangue que possuímos, cada acasalamento com uma fêmea diferente é uma “loteria”, sendo a sorte um fator significativo. O tempo para fixarmos um “tipo” em nosso canil será mais prolongado, mas, com paciência, poderemos obter o tipo de Akita que temos no nosso imaginário.
9. Kenia, após a última Exposição Especializada julgada em SP, pelo juiz japonês, criou-se uma polêmica em torno das cores dos Akitas, pois os conceitos eram diferentes (ao menos é o que se comentou entre os criadores). O Sr. Juiz disse que o desejável na cor vermelha era ser menos intensa e com subpelo cinza. Para os tigrados sugeriu cães sem a base avermelhada, sendo de um tipo de grisalho. Aprovou também o cruzamento entre os brancos, pois é a base de todas as cores. Qual é sua opinião e qual seu trabalho para chegar a esses pontos “desejáveis”?
Eu não compartilho da opinião do Sr. Juiz em relação ao que o mesmo disse da cor vermelha. Todos nós sabemos que o vermelho intenso sempre foi uma cor muito desejada pelos criadores da raça Akita, assim como imagino que todos os que viram a cor do Akita ao qual o juiz se referiu, sabem com certeza que o mesmo tem uma cor adequada, para meu gosto excepcional, sem nenhum tipo de exagero da tonalidade do vermelho. Na mesma oportunidade o mesmo juiz elogiou a cor da pelagem de outro Akita, presente na mesma exposição, que tinha exatamente a mesma cor do primeiro. Alguma razão houve para que esse juiz chamasse o handler que apresentava esse cão, na saída de pista, para dizer-lhe espontaneamente que o cão era muito bonito, mas “vermelho demais”, afirmando que o Akita tinha que ter pelos amarelos“. Suas razões não me interessam. O outro motivo que me leva a dizer que não concordo com a opinião do sr. Juiz é que um mês antes eu havia participado da Mundial, na Itália, como muitos sabem, e lá tive a oportunidade de ver mais de 150 Akitas, dos melhores canis do Japão e da Europa. E entre os exemplares, os 2 machos que venceram a Mundial e a Especializada de Raças Japonesas, julgados por 4 juízes japoneses, eram cães de um vermelho intenso, sendo ambos importados do Japão. Fica o enigma da Exposição de São Paulo mas, junto com ele, a confusão desnecessária na cabeça dos que ouviram essa opinião do sr. Juiz.
Com relação aos tigrados, tivemos a oportunidade de ver vários Akitas dessa pelagem na Mundial, tanto com base avermelhada como cinza. Eu os prefiro com base acinzentada, mas uma coisa é minha preferência, outra coisa é tendências.
Com relação ao acasalamento de branco com branco, sempre soube que não seria adequado porque a cor branca é recessiva, o que ocasionaria uma série de prejuízos para a criação. Existe mais de um par de genes que determina a cor de um cão, sendo que um dos genes determina a presença de pigmento do pelo e o outro a cor do pigmento. A combinação desses genes é que determina a cor do cão. Um cão é branco quando os genes recebidos dos pais determinam ausência de pigmento no pelo, embora o mesmo possa ter os genes que determinam presença de melanina e, portanto, pálpebras, nariz e lábios pigmentados. O problema é que, muitas vezes, junto com os genes que determinam ausência de cor (cão branco) aparecem os genes que determinam ausência de melanina e, portanto, cresce a possibilidade de filhotes total ou parcialmente despigmentados, com a conseqüente descoloração no nariz, nas pálpebras e nos lábios.
Não costumo fazer o acasalamento de branco com branco porque seria um somatório dessa deficiência. Sempre desaconselhei aqueles que alguma vez me perguntaram se esse seria um bom acasalamento, mas não sei quais foram os argumentos utilizados pelo Sr. Juiz e, portanto, não posso me posicionar a respeito do que o mesmo disse.
Meu trabalho para chegar à cor que me agrada tem sido o acasalamento de vermelho com vermelho e de vermelho com tigrado, sempre em busca de cães de cor vermelha. O que tem me chamado a atenção é que a “fórmula”, que sempre ouvi falar, que tigrado acentua a intensidade do vermelho, não está sendo comprovada em minha criação. Nas 2 ninhadas de fêmea tigrada com macho vermelho que tive, nasceram as 3 cores, mas os filhotes vermelhos obtiveram uma cor mais clara que a do próprio pai. É uma mostragem pequena, mas foi algo que me chamou a atenção.
10. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná são os maiores centros da criação dos Akitas no Brasil. Você já teve a oportunidade de estar presente em grandes eventos, nos 3 Estados. Qual é sua opinião sobre a qualidade do plantel nacional perante os outros países?
Penso que temos bons Akitas no Brasil, fundamentalmente de proprietários e criadores destes 3 Estados, mas ainda não se observa homogeneidade da qualidade como a que se vê em outros países. Também existem Akitas de tipicidade mais antiga (como temos muito ainda no Brasil) em centros como Itália, França e, mesmo, no Japão. Refiro-me a exemplares com cabeça menor, cara fina e focinho mais comprido, orelhas mais longas, olhos mais arredondados, pouca juba e pouco pelo falta de sub-pelo corpo estreito, pouco peito. Mas talvez este tipo de Akita seja mais raro lá fora. Pelo que tenho visto hoje, eles estão mais longe das pistas brasileiras, embora existam em grande quantidade entre a população, nas praças, nas Pets, nos fundos dos quintais. E se não nos ocuparmos disso, nunca teremos uma raça forte e típica no Brasil.
11. Você possui em seu Canil cães vindos da Itália, França e Japão. Quais as principais diferenças que você observou entre as criações dos 3 países? No Brasil temos cães nacionais, com até 4 gerações sem importados, de qualidade igual ou superior aos cães internacionais?
Não me sinto com experiência suficiente para responder categoricamente esta pergunta, na medida em que conheço somente alguns dos Canis da Itália e da França, embora tenha visto muitos cães de outros Canis nas exposições das quais participei. Então falo a respeito daquilo que tenho observado.
Tanto na Itália, como na França, assim como na Holanda, no início dos grandes Canis está sempre presente a importação de exemplares do Japão e, depois, eventualmente, a linha de sangue é reforçada com outras importações também do Japão. Sendo assim, me parece impossível que existam tantas diferenças entre os Akitas desses 3 países em relação aos cães do Japão. Fica claro o que digo??? Revisem os nomes dos cães desses Canis ao longo do tempo e, certamente, vão entender mais claramente o que eu digo. Definitivamente, não compreendo a insistência de alguns em afirmar que os Akitas “italianos” são diferentes dos cães vindos do Japão. Não concordo com esse tipo de postura de pessoas que, em nome não sei do que... Desvalorizam exemplares que, inclusive, venceram lá fora, julgados por juízes de onde...? Do Japão!!!
Por outra parte, tenho observado que alguns dos Akitas de Canis brasileiros, que foram importados do Japão, parecem ter menos ossatura e menos largura, assim como posteriores frágeis e, em conseqüência, uma movimentação feia, em relação àqueles que foram importados da Itália. Ao mesmo tempo, durante a Mundial deste ano, ouvi alguns criadores italianos reclamarem de exemplares que chegaram do Japão, também com estas características de uma certa “fragilidade” de estrutura. Na mesma ocasião, escutei também outros criadores se queixando do número elevado de Akitas displásicos, vindos do Japão. Mas, em contrapartida, nas Exposições de que participei (com ou sem meus cães), vi inúmeros Akitas com muito boa estrutura e ossatura forte, sem nenhum sinal de displasia, sendo exemplares nascidos no Japão!!!
A única maneira de explicar este fato é que lá, na terra de origem dos Akitas, como aqui, como em relação a qualquer raça canina, existem cães de melhor qualidade, enquanto outros tantos são menos belos e mais imperfeitos. Por outra parte, nem todos os exemplares japoneses têm que ser excelentes, mesmo oriundos dos melhores canis do Japão! Estou dizendo o óbvio, o que às vezes se faz necessário... Fazendo um parêntese, o fato do Fila ser uma raça brasileira garante que todos os filhotes criados no Brasil sejam excelentes? E os melhores canis de Fila Brasileiro do Brasil sempre têm filhotes belíssimos? E a diferença dos filhotes faz com que possamos afirmar que um veio de um bom criador e o outro de um “vendedor” de cachorro??? Todos nós sabemos que NÃO!
Por favor, penso que precisamos acabar com essa lenda que prega que os Akitas com mais ossatura, peito mais largo, boas angulações, que se movimentam bem, etc... não são tipicamente japonêses. Afirmar que Akita não pode se movimentar bem em função de sua angulação também é uma afirmativa altamente questionável. O Akita não é um Pointer ou um Whippet. É um Akita e tem sua movimentação característica. Não se pode confundir as más angulações de alguns Akitas (o que é bastante comum na raça) com a dificuldade de movimentação de toda uma raça! Se não fosse assim, os 4 juízes japoneses que julgaram a Especializada de Raças Japonesas e a Mundial em Milão, neste junho passado, estariam profundamente equivocados. Por que todos eles insistiram tanto no julgamento da movimentação dos Akitas que participaram do evento??? Por que os Akitas machos e fêmeas que ocuparam os primeiros lugares mostravam excelente ossatura, muito boas angulações e se movimentavam corretamente??? Não sou somente eu quem viu o que estou afirmando. Além disso, as fotos e as filmagens da Itália estão aí para falarem por si próprias. E atenção: os juízes que julgaram nessa oportunidade fazem parte do Japan Kennel Club, assim como da WUAC, grupo que hoje está liderando o trabalho de divulgação da raça Akita no mundo inteiro de uma forma bastante comprometida!
12. Além da introdução de uma nova linha de sangue, qual é a importância dos cães importados dentro do plantel nacional?
É que essa nova linha de sangue introduz na criação nacional determinadas características mais atuais da tipicidade da raça. Há alguns anos atrás encontrávamos muitos Akitas com características bem diferentes daquelas que víamos em cães do famoso Calendário Japonês. Hoje continuamos a encontrá-los, não só no Brasil, como no próprio Japão, mas em menor número. Aos poucos vai se vendo aqui e acolá Akitas que têm orelhas menores e mais bem postadas, olhos mais puxadinhos, maior quantidade e densidade de pêlo, assim como a presença de sub-pêlo, cores mais definidas – vermelho mais intenso, branco mais branco.
De qualquer modo, devemos tomar cuidado para que a importação ocorra na medida certa da nossa necessidade – o suficiente para que possamos firmar a criação nacional. Da mesma forma que a criação de uma raça se fragiliza se todo seu crescimento se faz em torno de um exemplar, a abertura de demasiadas linhas de sangue dificultaria e retardaria a fixação de uma tipicidade da raça Akita em nosso país.
De outro lado, usar a importação para manipular o mercado, só empobrece a criação nacional. Ter Akitas importados do Japão é interessante. Afinal, lá é seu país de origem. Mas afirmar que só esses são “puros” é ignorância ou má fé de quem faz essa afirmação. A “pureza” não pode ficar restrita aos cães oriundos do país de origem de uma raça. A tipicidade e a renovação da linha de sangue é o que tem sentido.
13. Nos passe um pouco de sua experiência adquirida nas 2 Exposições Mundiais que seus cães participaram.
Ah... Aqui acho que tenho muita coisa a dizer. Inclusive acho melhor dividir em tópicos: resultados e emoção, custos e experiência.
- Com relação a resultados de Exposições Mundiais, vivi duas situações interessantes: embora na 1* tenhamos voltado com o título de “Jovem Campeão do Mundo” (México), e na 2* termos ficado com um 4* lugar na Classe Campeonato, sem título de Campeão (Itália), a emoção foi maior na Itália. Alguns poderão pensar que a razão disso é que a fêmea que levamos para Itália é de nossa criação, enquanto o macho que foi ao México é só nossa propriedade. Engano. Ambos eram do Yamada e do meu coração.
A razão é outra. No México não havia tantos Akitas, sendo inclusive maior o n* de “Akitas Americanos” (foi lá que se concretizou a separação – Chanoyu estava na pré-pista no 1* dia de Exposição, quando fomos convocados a dizer se nosso cão era japonês ou americano – participamos de um momento histórico!). Quando vimos os exemplares que iriam disputar os títulos de Campeão e Jovem Campeão da raça Akita, restava muito pouca dúvida que o grande Seihoh seria o Campeão e Chanoyu o Jovem Campeão. Enquanto isso, na Itália, havia mais de 150 Akitas em pista, oriundos dos maiores canis do Japão, da Itália, da França e da Holanda, sendo julgados por juízes japoneses. Então, do ponto de vista de obter e trazer um título para o Brasil, o México nos gratificou mais, mas do ponto de vista de uma disputa acirrada e de um julgamento mais duro, a Itália valeu muito mais.
Trago este detalhe para dizer que é importante avaliar o país onde se realiza a Mundial e os nossos objetivos ao participar do evento. Em países da Europa, a tendência é que a disputa se dê com um n* bem maior de Akitas e de qualidade muito superior. Tudo começa e termina numa só pista. As chances de voltar com o título de Campeão são menores, mas o prazer de disputar com exemplares muito qualificados traz recompensas que não necessariamente passam pelo diploma de Campeão do Mundo. Uma classificação na Classe Campeonato, vencendo fêmeas que tínhamos visto no Calendário Japonês, vencendo a fêmea que havia feito Reserva do Melhor Absoluto em Hamm, na Alemanha, etc... Para nós, valeu mais que o título do México.
- Com relação aos custos: são altos. Para quem tem patrocínio, o que se recebe constitui uma boa ajuda. Digamos que paga o avião do cão e de uma pessoa (depende do tamanho do cão, é claro, porque levar um Terrier Brasileiro é diferente de levar um Akita – pela questão do peso). O restante é por nossa conta: hotel, alimentação, transporte para o hotel, para o local de exposição, etc...
- Em relação à experiência que obtive com estas viagens, considero ser o aspecto mais valioso de todos! Depois de ter participado de 2 Mundiais e de 2 Exposições Especializadas da Raça Akita (que ocorreram em Hamm, na Alemanha, aonde não levei cães, e na Itália, onde minha fêmea fez 2* lugar na Classe Campeonato, julgada também por juízes japoneses), além de ter assistido uma Exposição Geral com mais de 2000 cães, em Pádova, na Itália, posso dizer que vi muitos Akitas, quem sabe uns 250 ou 300 exemplares, que são considerados como os mais lindos do mundo na raça ou, pelo menos, oriundos dos melhores canis do mundo. Penso ser esta a melhor forma para conhecer uma raça e para realmente poder avaliar o que é mesmo essa “tipicidade atual” da raça Akita, tão falada por todos.
A raça Akita sofreu uma série de transformações em função do desejo dos japoneses de resgatar a raça original. Mas, além da tentativa de reencontrar o Akita dos inícios, foram também alterados algumas das características desses primeiros Akitas, e o padrão da raça, segundo meu ponto de vista, não explicita muitas dessas modificações. A partir disso, se instaurou uma espécie de confusão, onde muita gente emite as mais variadas opiniões, “classificando” exemplares que estão nas pistas brasileiras como mais ou como menos típicos, tecendo considerações diversas sobre cor, ossatura, estrutura, diferenças entre a “pureza” dos Akitas vindos da Itália em relação aos que vieram do Japão, etc... A partir de “achismos” ou de repetições daquilo que ouviram de alguns “iluminados”.
Então, por isso afirmo que o ganho mais importante que tive nessas viagens “cinófilas” foi a possibilidade de ver muitos Akitas, que estão sendo criados nos países aonde mais prolifera esta raça neste momento. Isso me deu mais tranqüilidade em relação aos rumos de minha criação, quem sabe me permite avaliar um Akita melhor do que antes. Sempre que posso, trato de passar algo dessas minhas experiências para os outros, tentando colaborar no que é possível e, ao mesmo tempo, tentando afastar “fantasmas” que circulam entre nós e que parecem estar prenhes de outros objetivos que nada têm a ver com a melhoria da raça.
Para concluir: o outro nível de experiência maravilhosa que vivi, particularmente nas viagens que fiz com meus cães ao México e à Itália, que não posso deixar de compartilhar com vocês, foi estar num país estranho, bem acomodada num hotel, freqüentando o hall do hotel e restaurantes, e tendo como companheiro (a), em cada vez, um de meus Akitas. Foi fantástica a transformação de ambos numa situação como essa. Eles souberam identificar que ali não era igual a estar em casa e alteraram seu comportamento habitual – nada de molecagem, nada de “marcar território”, nada de remexer onde não era devido, nada de rosnar em restaurantes onde estavam outros cães desde que estes não mostrassem qualquer tipo de hostilidade. Mas sua função de guarda continuou presente: dormiam sempre deitados na frente da porta do apartamento, despertando e ficando alertas, embora mudos, a qualquer ruído que viesse do corredor do hotel. São companheiros maravilhosos de viagem! E olha que meus cães convivem muito conosco, mas muito pouco dentro de nossa casa...
Caros Akiteiros: me estendi talvez um pouco demais, mas foram muitas e muito boas as perguntas, e os temas são polêmicos. Além disso, não me limitaram o espaço. Disseram que eu poderia escrever quanto quisesse. Então... escrevi. Tomara que estas respostas sirvam ao objetivo do “Akitas.Net” que, pelo que entendi, seria incrementar a discussão sobre a raça Akita. Minhas opiniões estão lançadas. Certamente existem outras, o que, afinal, é justamente o que propicia o diálogo... Vamos lá!
Obrigada ao Akitas.Net! Senti-me honrada e agradecida com o convite de vocês. Tentei retribuir da melhor forma possível através de minhas respostas. Parabéns pelo Akita.Net! A raça precisa de gente que trabalhe nessa direção.
Por enquanto, um abraço a todos, um Feliz Natal e um ano 2001 cheio de Akitinhas!
Kenia Ballvé Behr – Canil Yamada – Porto Alegre
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