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Para compartilhar nossa experiência no Japão com mais pessoas do meio cinófilo e, particularmente, com os akiteiros, o Núcleo de Criadores da Raça Akita RS, decidiu organizar um encontro na sede social do KCRGS, contando com a presença de duas das pessoas que viajaram a Tókio para participar do "Seminário Especial sobre a Raça Akita para Juízes e aspirantes a Juízes". Então, além da minha presença, tivemos a satisfação de estar com Anita Soares, presidente do Clube Paulista do Akita, que também participou da atividade organizada pelo Japan Kennel Club e pela WUAC (World Union of Akita Clubs).
No dia 15 de março, então, nos reunimos com um grupo integrado por criadores e proprietários de cães da raça Akita, com criadores de outras raças, com dirigentes cinófilos, com handlers, com juízes e com amigos, e durante mais de 2 horas, além de tentarmos transmitir a todos o que escutamos e vimos no Japão, discutimos com os presentes vários temas sobre a raça.
Foi um encontro muito agradável, que reuniu quase 60 pessoas, que foi inclusive difundido por emissoras de rádio e TV do RS, além de ter sido encerrado com um cocktail e com um jantar que permitiu que as discussões se prolongassem mais um pouco.
Mas retomando Tókio, a importante iniciativa dos japoneses deveu-se ao desejo dos mesmos difundirem, de uma forma cada vez mais clara, as características que devem ser observadas como típicas dos Akitas. No Seminário que participamos, representantes de inúmeros países do mundo inteiro tiveram a oportunidade de escutar os próprios japoneses falando e mostrando (numa exposição que reuniu mais de 100 exemplares) as características mais importantes da raça Akita, originária de seu país.
Não se pode dizer que surgiram idéias totalmente novas, mas sim, que foram melhor esclarecidos determinados detalhes de extrema importância em relação ao padrão da raça Akita.
A seguir, vou tentar fazer uma síntese do que vimos e ouvimos no Japão, do que foi falado no Seminário do Núcleo de Criadores da Raça Akita RS, tratando de pontuar os aspectos mais relevantes acerca da tipicidade da raça e aqueles temas que foram elucidados na viagem a Tókio.
No Seminário organizado pelo JKC foi conferido muito tempo de discussão sobre a cabeça do Akita que, além de dar o aspecto de dignidade, harmonia e força ao cão, deve ser observada especificamente em alguns de seus detalhes.
Por exemplo, em relação aos olhos, foi enfatizado que os mesmos devem ser triangulares e ter uma posição oblíqua, devendo a linha da pálpebra inferior estender-se na direção da base inferior da orelha. A expressão dos olhos de um Akita mostra seu temperamento e deve dar a ele um ar de dignidade. Os olhos não podem ser muito juntos e nem muito separados, devendo ser escuros. Em relação às orelhas, as mesmas devem ser triangulares, com as pontas levemente arredondadas, guardando uma boa distância entre elas. O ângulo das orelhas deve ser aproximadamente paralelo ao ângulo do pescoço. Stop moderado, focinho de formato circular, poderoso e moderadamente curto, sulco entre os olhos e lábios superiores justos e fortes, são outros elementos indispensáveis para marcar a tipicidade da raça.
Mas os japoneses não estão só preocupados com a cabeça do Akita. Este foi um tema que me chamou muito a atenção, já desde a Mundial da Itália, quando vi que os juízes japoneses que lá julgaram se detiveram muito na observação da estrutura e da movimentação. De qualquer modo, a ênfase especial está posta na harmonia do cão: uma bela cabeça, um pescoço musculoso, um antepeito bem desenvolvido, assim como patas fortes e cotovelos bem posicionados.
As patas traseiras devem estar retas quando olhadas de trás - nem juntando os jarretes, nem arqueadas - e devem ser fortes para dar força e impulsão para a progressão dos movimentos. Os pés devem estar plantados em linhas paralelas (um em relação ao outro), serem arredondados, devendo possuir almofadas grossas.
A cauda deve ter uma inserção alta, ser enrolada, formando uma elipse. O comprimento deve ser adequado: quando abaixada deve ir aproximadamente até o jarrete. No Seminário, os japoneses confirmaram que vários tipos de curvaturas são encontrados e aceitos, não sendo adequada cauda em pincel (como a do Husky Siberiano) ou a cauda que descansa totalmente sobre o dorso. A cauda deve ser farta, sendo que o movimento e a harmonia que se estabelece entre a mesma e a cabeça é uma das características que mais empresta beleza a um Akita.
A pelagem é outra característica que deve "saltar aos olhos" quando se aprecia um exemplar desta raça. Cor adequada, brilho, densidade e textura do pêlo são fundamentais. A pelagem externa é mais áspera, como convém a um cão primitivo, enquanto o sub-pêlo é macio. As cores incluem:
- Vermelho: não é cor de palha, nem marrom, é vermelho, como está posto no Padrão.
- Tigrado: mais claro ou mais escuro, com fundo vermelho ou com fundo cinza, o que importa é que a máscara não seja preta, mesmo que em alguns casos ela seja muito escura (no caso de tigrados escuros) e o tigrado apenas seja identificado através de fios brancos que estão por trás da pelagem escura.
- Branco: não é creme! Mas é permitido que apareça uma tonalidade levemente amarelada no contorno interno das orelhas. Embora seja preferida a trufa bem escura para o exemplar branco, a coloração carne é aceita, mas somente para cães desta cor. Em nenhum momento foi comentado que os Akitas brancos estivessem "em baixa", como se disse algumas vezes em nossos pagos. Inclusive, na Exposição Especializada de Tóquio havia um número bastante expressivo deles. O fato que impressionou o grupo brasileiro é que eram cães brancos com mais ossatura e mais imponentes que a maioria dos brancos que vemos no Brasil.
- Sézamo: o fio do pêlo dos Akitas vermelhos e sézamos se compõem de 3 cores. Nos cães vermelhos temos preto na raiz, branco no meio e vermelho na ponta. No sézamo essa sequência se altera, ficando o vermelho na raiz e o preto nas pontas. Neste caso, se considera sézamo o cão que mesmo após os 2 anos de idade mantém essa cor espalhada por todo o corpo, e não apenas no dorso. Foi comentado pelos japoneses que dirigiram o Seminário que é bastante raro se ver um Akita dessa cor, embora em nenhum momento foi dito que seria uma cor não desejável.
Ainda sobre a cor: com exceção dos cães de cor branca, o urajiro deve estar presente nas outras 3 cores. Urajiro significa a cor branca ou esbranquiçada do pêlo ao lado do focinho, das bochechas, na parte de baixo do pescoço, do peito, do corpo e da cauda, assim como na parte interna das patas.
A discussão em Tókio e em Porto Alegre não deixou de contemplar o tema das doenças que acometem cães dessa raça. Como é sabido por muitos há uma série de males que atacam os Akitas e angustiam os criadores desses cães. Ainda não existem explicações suficientes para suas causas e muito menos uma terapêutica eficiente. Ouve-se críticas aos japoneses no sentido que os mesmos, ao não comentarem as doenças típicas dos Akitas, não colaboram para a elucidação desses problemas. De qualquer maneira, já ouvi de alguns veterinários de nosso meio, que têm tido mais experiência com a raça através de sua clínica e do acompanhamento de alguns casos, que as 2 patologias mais terríveis que freqüentemente atingem a raça, na verdade, são doenças auto-imunes, para as quais não há cura. Refiro-me particularmente a Adenites Sebáceous e a Síndrome de Koyanagi-Harada ou Síndrome de Voght.
O outro lado "negro" que deve ser mencionado, tem relação com o que pudemos observar nos cães que vimos na Exposição de Tókio. A maioria deles eram Akitas belíssimos no que diz respeito à tipicidade, à cabeça, e a tudo que tem a ver com o aspecto tão fundamental, que é o temperamento e o ar de dignidade que torna essa raça tão bela. Mas o contraponto disso ficou do lado de traseiras muito fracas e, em conseqüência, de uma movimentação que deixava muito a desejar. A pergunta para um criador que importa um Akita do Japão é: como saber se essa falha fica por conta do fato desses cães serem criados em gaiolas ou o que pesa é a carga genética? No primeiro caso, se o filhote vem para o Brasil com poucos meses, há solução. Mas no segundo caso, a situação se complica.
Mas tratando de encerrar esta síntese e à título de conclusão, diria que, de acordo com nossa percepção, a partir dos exemplares que vimos no Japão e daqueles que vemos em pistas brasileiras (particularmente RS, Sta. Catarina, PR e SP), podemos afirmar que existem muito bons exemplares da raça no plantel brasileiro, muitos deles importados (mas não só) que chegaram ao Brasil nos últimos anos, além de seus filhos que já aparecem aqui e ali. De modo geral, os Akitas que vimos no Japão, assim como os bons exemplares brasileiros a que me refiro, se diferenciam desses Akitas mais antigos, que existiam em grande número em nosso país, em vários aspectos:
- Por terem uma cara mais larga (de "ursinho") e um focinho mais curto, em contraposição a caras mais finas e focinhos bastante longos dos cães mais antigos;
- Porque seus olhos triangulares e oblíquos dão uma expressão diferente no Akita se comparados aos olhos arredondados de exemplares mais antigos;
- Porque a pelagem mais densa marca também uma diferença importante na aparência do cão, bem diferente daquela pelagem escassa e sem sub-pêlo que ainda vemos em tantos Akitas.
- Porque as orelhas menores, arredondadas nas pontas e que guardam uma boa distância entre elas, também se contrapõem a orelhas maiores, mais pontudas e inseridas de modo semelhante à inserção das orelhas dos Pastores Alemães.
Para finalizar, é importante salientar o modo como foram encerradas as 4 hs. de Seminário no Japão. Depois de longos e minuciosos relatos, ilustrados com material retroprojetado, a respeito de como deve ser realmente a interpretação de cada detalhe proposto pelo Padrão da Raça, o Sr. Shigero Shimada, que coordenava o Seminário, afirmou que, muito além da precisão técnica, o julgamento de um cão deve ser arte, e que mais importante que a precisão de cada detalhe é a capacidade do juiz poder apreciar o conjunto e a harmonia do Akita.
(Texto publicado no 3º Boletim do NCRA /RS - 2001)
Kenia M. Ballvé Behr
(Canil Yamada - POA)
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